quarta-feira, 13 de janeiro de 2010

Fui onde o vento me levou.


Hoje, ao acordar, não vi a confortável luz do sol que me faz querer pular da cama para aproveitar o dia. O céu estava cinzento, aborrecidamente coberto por uma névoa monótona mas ao mesmo tempo sublime.
Saí da cama, fui até a janela para inalar um pouco de ar puro. Inspirei. O ar frio e húmido entrou veloz pelos meus pulmões fazendo-me estremecer. O meu corpo queria tremer, mas eu ignorava a sua vontade, debatia-me com o frio que sentia imaginando-me num fim de tarde de verão, apenas para poder relembrar vezes sem conta aquela primeira lufada de ar que me fez sentir estranhamente bem. Por minha vontade, ficaria ali a ver as folhas das árvores em meu redor balançarem á passagem do vento, mas a minha mãe gritou o meu nome.
Tolerei a hipótese de a trazer para a minha beira, em frente daquela janela aberta, mas que raio de ideia era aquela? Enquanto o diabo esfregava um olho estaria a fechar a janela, obrigando-me a entrar usando a força dos membros superiores. Eu não queria imprimir qualquer imperfeição naquele momento insano.

Inalei mais um pouco de ar para a despedida. Fechei a Janela. Entrei.

Tentei manter aquele pedaço de ar puro dentro da minha caixa torácica, mas excedi o meu limite em menos de um minuto, tive de deixa-lo escapar e respirar de novo. Desta vez o ar que me invadiu os pulmões era quente, mas não me senti de todo confortável. A minha mãe suplicava-me que organiza-se as minhas 'tralhas', como ela lhes chama, a desorganização deixa-a fora de si. Assim o fiz. Despejei tudo para fora do armário num ápice, quando a vi...
Oh sim, quando a vi, uma caixa cor de rosa, tamanho médio e completamente empoeirada, nos confins do meu armário. Ajoelhei-me no mesmo instante para a alcançar, peguei-lhe de forma cuidada como se fosse algo extremamente frágil. Quando senti a textura rugosa do papel de cartão que a constituia pareceu que a minha infância passou em frente aos meus olhos durante escassos segundos, quis agarra-la, levá-la contra o peito com a força de um caloroso abraço. Eram SAUDADES. Apercebi-me que o que me embateu no peito foi uma mão vazia, não agarrei nada, a não ser moléculas de ar e grãos de pó que por ali andavam suspensos. As memórias abstratas escaparam-me por entre os dedos, necessitava avidamente de algo concreto, algo que pudesse tocar.
ABRI. Abri a caixa, tossi com o pó que se libertou dela devido ao meu movimento ansioso.
Lá dentro estava o meu maillot e as sabrinas do ballet juntamente com fotos dos saraus e uns tantos objectos que ignorei. Tirei-os da caixa e levei-os ao peito como quis fazer com a infância momentos atrás, mas desta vez as memórias eram materiais, conseguia tocá-las.
Acariciei a minha face esquerda com o tecido suave de que era feito o maillot, pude sentir o seu cheiro, cheiro esse que me levou ao estúdio de ballet, 8 anos atrás. Conseguia ouvir a musica, os risinhos das meninas que trocavam de roupa nos vestiários, os passos da professora Kate que dançava graciosamente em frente ao espelho enquanto esperava a sua turma do Pre-Primary. Foi tão bom poder voltar. Tentei vesti-lo, mas era extremamente pequeno, chegando ao ponto de o sentir rebentar pelas costuras, não insisti com medo de o estragar. Ás sabrinas não resisti, quase que as podia ouvir gritar pedindo que as calçasse, e era o que eu mais queria. Segurei-as a jeito e descalcei os chinelos... Os meus pés, tal como o resto, cresceram imenso, tive de tolher os dedos para que coubessem nas sabrinas, senti dor, mas era agradável, era como se tivesse menos 25cm de altura e uma inocência dócil em mim.
Estava em pulgas, sentia a ansiedade da criança de 8 anos que me dominava, ali naquele instante, levantei-me desajeitada para dançar. A musica que me passava pelo pensamento arrepiou-me, dei por mim a mover-me sem graciosidade, mas não me preocupei, era só eu, a música, a criança que sempre fui e as minhas sabrinas de ballet.

3 comentários:

  1. - Faço das tuas palavras miinhas. Tu sim tens uma paixão por algumas coisas como nunca vi *.*
    Bem vinda ao Blogue Maria MelhorAmiga :P

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  2. Bem que entrada neste mundinho triunfante *.*

    Um texto lindo, tambem ja escrevi um sobre uma caixinha muito especial... parece que todos temos uma, cada uma com os seus segredos, as suas recordações... os seus sonhos que apenas partilhamos com pessoas especiais ou entao preferimos guarda-las so para nós.
    Gostava de tirar uma frase que me tivesse marcado mesmo mas gostei de todas *.*

    O blog está lindo minha zombieee ^^^ & Bem Vinda a este Mundinho!!!

    GMDT <<3

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