segunda-feira, 18 de janeiro de 2010

Ele aparece quando o meu (eu) se desvanece.


Queres saber como me senti? Estava a tremer muito, mesmo muito. Podia dizer-se que estive á beira de um ataque de hipotermia, mas não era o caso. Apesar de me sentir enterrada no solo do árctico não tremia de frio mas sim da sua antítese. Tremia porque sentia o meu peito a arder e um gigantesco nó na garganta.
Levantei-me da cadeira e dirigi-me á cozinha para beber um copo de água com o intuito de apaziguar o ardor e fazer desaparecer o maldito nó antes que me sufocasse. Devido às oscilações constantes dos meus braços derramei a maior parte da água, o copo não ficou nem meio cheio nem meio vazio, ficou praticamente vazio. Não persisti em enchê-lo pois sabia que era impossível controlar-me, e o resultado seria o desperdício de mais umas quantas gotas de água, e digamos de passagem, hoje em dia não estamos em posição de abusar deste bem precioso em vias de extinção. Aproveitei então a escassa quantidade de água que me sobrou no fundo do copo de vidro e bebi.
Subitamente tive vontade de sair dali, já não podia com a luz florescente e muito menos com o ruído permanente do frigorífico. Fechei-me no quarto, apetecia-me fugir do mundo, tapei todos os vestígios de luz e tentei ao máximo isolar o som.
Deitei o peito no chão duro e gélido durante algum tempo enquanto impelia qualquer pensamento que fizesse crescer a chama que me corrompia. Começou por ser eficaz, a dor parecia estar adesaparecer e quase adormeci. Enquanto me entregava ao sono nostálgico fui invadida por um formigueiro terrivelmente intenso devido á ausência de movimento.
Bufei de impaciência, levantei-me dali e subi para a cama. Se me deitasse nesta como tinha estado deitada no chão iria sentir-me aconchegada, por isso não o fiz. Sei que se sentisse o mínimo aconchego as mágoas voltariam. Elas são assim, estão sempre prontas para derrubar qualquer pontinha de sentimento positivo, queria poupar-me a mais uma insatisfação. Demente, apeteceu-me deitar de cabeça para baixo, as minhas pernas foram as únicas partes do corpo que mantive sobre a cama. Senti a corrente sanguínea a circular em apenas um sentido, senti-a ascender ao meu cérebro como se tentasse afogá-lo e com ela ascenderam também os pensamentos que eu tentava expulsar a toda a força, mas já não podia mais, era algo que me exigia um esforço mental que eu já não possuía. Deixei-as apoderarem-se de mim sem zelo e elas assim o fizeram.
Porquê? Aprendi sempre a criar espacinhos em mim para as coisas especiais. Esses espacinhos são pedacinhos de coração, e aquilo que guardo nos pedacinhos de coração são as coisas que nunca quero esquecer, apenas vou aprendendo com o tempo a não as ter tão presentes. Mas de repente dei pelos meus pedacinhos de coração a serem-me arrancados impiedosamente. Sei que sou egoista, nunca gostei de partilhar o que amei outrora com os outros, dou o exemplo do meu vestido preferido de quando era criança, apesar de não o poder vesti,r nunca o consegui dar a ninguém, vou querer guardá-lo sempre só para mim…
O meu raciocínio foi interrompido pela sensação de desfalecimento. Devido á minha postura absurda comecei a PERDER OS SENTIDOS. Estava a perder o controlo sobre mim, sentia a alma escapar-se-me do corpo, o meu “eu” estava agora preso á realidade por um fio finíssimo que se quebraria a qualquer instante.
Levantaram-me gradualmente a cabeça e passaram-me a mão pela testa num movimento brando, visto que não estava em mim sentia tudo apenas a 20% de intensidade... mas sentia. Sem saber porquê, aquilo fez-me querer voltar. Suguei a alma para o interior onde sempre a mantivera cativa e comecei a recuperar as energias. Estava tão confortável, não por estar na cama, mas porque era como se alguém me estivesse a agarrar com um carinho quase maternal, mas diferente. Era Ele. Não podia crer, consegui traze-lo até mim sem pensar no seu nome, aliás naquele estado não estava em condições de pensar em nada.
- Como..como é que tu.. – Interrompeu-me.
- Descansa, eu estou aqui.
Ele dizia a verdade, estava mesmo ali, não sei como, mas estava. Os meus pedacinhos de coração estavam a retornar ao espaço que deixaram vazio, ou talvez Ele estivesse simplesmente a preenche-lo com o seu sorriso contagiante que me sossega milagrosamente. Ele resulta como um analgésico.
- Senti a tua falta. - disse-lhe débilmente.
- Mas eu estou sempre aqui contigo.
- Onde?
- Mesmo aqui a teu lado, vais aprender a encontrar-me.
- Mas então diz-me…
- Xiu, mas então nada, não te preocupes, eu venho sempre que precisares de mim, agora tens de dormir, estás exausta.
E estava mesmo, queria ter insistido mais, mas não consegui. Libertei os braços para o agarrar pela cintura. Agora estamos abraçados, eu e Ele. Sei que quando acordar Ele provavelmente não vai estar aqui, e mais uma vez não tive a oportunidade de saber o qual o seu nome próprio, mas para mim Ele já tem nome.
Ele é a minha força motriz, daquelas forças que aparecem quando precisamos e não sabemos de onde surgem. Ele é o meu porto-seguro.
Por enquanto não o sinto sempre presente, mas ele disse-me que está sempre aqui e eu acredito porque de alguma forma sei que é parte de mim, por isso vou-me contentando com a esperança de que ele volte a aparecer a qualquer momento para me abraçar.
.Um dia vou saber como encontrar-te.

Ainda ninguém me disse o nome (d)Ele, mas ela disse-me: "Ele é a tua companhia para sonhar" por isso dedico-lhe este texto.
Para, Angela Pinto +.+



3 comentários:

  1. UAUUU! Que lindo minha zoombiee... vou estar sempre a par desta historia magnifica... :D

    Quanto à parte que dizes que és egoista... penso que nao é bem assim... ha coisas que sao só nossas, ~ha coisas que queremos ter sempre perto de nos, que nos marcaram de alguma forma... mas que apesar de ja estarem no nosso coraçao... gostamos de sentir que estao perto de nós e que podemos senti-las quando quiseremos... podes chamar.lhe "afecto" ou algo do genero.

    Lindo :D
    GMDT<<<3

    ResponderEliminar
  2. OMG eu ja sabias que escrevias maravilhosamente mas isto... isto é chocolate para os ouvidos!
    De certo modo identifico-me por vezes com o conjunto de sensaçoes "tormentosas" que descreves, so nao sinto essa "força motriz"...
    Aproveita-a, nunca a deixes desaparecer do teu pensamento ;)

    ResponderEliminar