
domingo, 7 de novembro de 2010
Us/Noone

quarta-feira, 9 de junho de 2010
Não Existem Soluções. Existe DESTINO

Ulteriormente tenho parado as palavras, sentia vontade de escrever mas sem saber como me expressar. Toda a gente sabe, a tristeza e a raiva são as melhores fontes de inspiração, mas eu não estava triste, não retinha raiva de ninguém….Estava confusa. Fervilhavam turbilhões de sentimentos, pensamentos, mágoas, risos, lágrimas, eu era um dia de sol e um dia de tempestade tudo ao mesmo tempo. Vim aqui, várias vezes até, iniciei vários textos mas as letras jamais formavam palavras, os projectos de palavras já não se ligavam entre si para formar frases coesas, então parei. __________________________________________________________ Não é a solução. Fugir não é a solução. Virar as costas e seguir no sentido contrário um do outro não foi a solução. Parece simples e eficaz, quando nos escapam pormenores como o facto de vivermos num mundo esférico. Independentemente de partirmos do Equador, do meridiano de Greenwich ou de todas as posições paralelas aos últimos, podemos seguir o destino de costas viradas um para o outro mas vamo-nos sempre encontrar no lado oposto, frente-a-frente. É como no circulo trigonométrico, se partirmos do 0 encontramo-nos no π . Estava a ser fácil, pensei… fácil demais, em determinadas alturas enchi-me de orgulho por estar a conseguir deixar tudo para trás tão depressa. Até que dei conta do vazio. Uma nostalgia envolvia-me como um manto de ceda áspero que me abafava gradualmente. Tinha-te te dito que não haveria mais nada, mas naquele momento já não tolerava a ideia, não podia ser para nunca mais, EU SENTIA A TUA FALTA. Sei que tínhamos prometido que aquele seria o nosso fim, e depois? Também havíamos prometido tantas vezes, olhos nos olhos, que iríamos ser sempre o complemento um do outro, e no entanto…
Agora sei que as promessas não são garantias, são apenas dividas nunca pagas em toda a sua plenitude. Peço-te, não me sussurres ao ouvido promessas de um amanha, grita-me apenas a felicidade de um hoje.
Entrelaçamo-nos. Entregámo-nos á pureza do toque.. despi-me de mim, vesti-me de ti, tu pertences-me, eu pertenço-te e por mim.. seria sempre assim.
- Isto não advém das soluções que compomos, sobrevém apenas do destino que nos cruza.-
sábado, 23 de janeiro de 2010
A Oitava Chave.
(Ele) esteve a apoiar-me, esteve a meu lado enquanto eu escrevia os meus desabafos e ia enchendo a caixa. Quando finalmente a fechei estendeu os braços, coloquei-lha nas mãos e ele levou-a para longe. Levou-a para um cantinho algures em mim onde eu não a possa encontrar conscientemente. Prometeu que me a vai devolver um dia, mas só quando eu estiver preparada para a abrir com um sorriso, guardando em mim apenas as boas recordações.
Devia estar a estudar, mas francamente hoje é dos tais dias que estou com ainda com menos cabeça, que o habitual, para os estudos. Não tenho nada para fazer e estou só, acompanhada apenas pelo som da música do telemóvel que se propaga até aos meus ouvidos através dos phones. É verdade, telemóvel, phones e música nunca podem faltar.
Estava de pé, suspensa na batalha que se dava entre os meus neurónios devido ao estado caótico em que se encontrava a minha mente. Precisava de me sentar. Puxei a cadeira que estava em frente á secretária e sentei-me nesta, trouxe-a para o meio do quarto, em frente á janela da varanda e arredei as cortinas para desfrutar da vista. A cadeira é branca, o tecido que a reveste é de bombazina, é macia e agradável ao toque. Aqui sentada consigo ter uma visão plena sobre o rio Douro, não está azul como eu o pintava nos meus desenhos de criança, mas não retira qualquer beleza da paisagem em que se insere, como todos os bons turistas e os conterrâneos mais observadores sabem dizer, as paisagens do Douro são qualquer coisa de fantástico. O clima está ameno, o céu está cinzento e não se vêm vestígios do Sol, mas o vento hoje não sopra, pois as árvores aparentam estar petrificadas, talvez tenha tirado uma folga ou algo assim.
Desde que estou aqui já passaram imensas pessoas á minha frente, mas nenhuma delas me chamou suficientemente á atenção para conseguir desviar o pensamento daquilo que estou a sentir. Acho que hoje acordei num dia de transição de fase, talvez hoje ascenda á próxima etapa, metaforicamente dizendo: Chegou a altura de virar a página.
Como é que sei?
Hoje abriu-se uma das minhas caixas do coração para deixar escapar algumas das coisas que nela guardava trancadas a sete chaves. Não era difícil mantê-las nela fechadas, eu não o vi mais desde que… Acabou, ou melhor, a ultima vez que o vira fora bastante antes de ter sido dita essa palavra entre nós, o que de certa forma tornava fácil achar que já não me fazia tanta falta. Mas hoje…
A matemática já não é, de longe, um dos meus fortes, mas a personagem principal da história guardada naquela caixa entrou de repente. Fiquei sem saber como reagir, mantive então a posição imponente e o ar de indiferença. Normalmente fico calada e evito tocá-lo com o olhar, ele questionou-me porque o fazia, não lhe soube responder, porque de facto não encontro uma razão racional ou plausível para este tipo de atitudes.
Quando se aproximou da mesa, emanava de si o cheiro do perfume de sempre, dava a ideia que despejara todo o frasco em cima da roupa. Quando se sentou deixei escapar um rápido “olá”, não me respondeu, riu-se. Sinceramente eu própria não esperava que o fizesse.
Foquei-me na folha quadriculada que deveria estar a ser acarinhada pela ponta do meu lápis de carvão, mas o meu raciocínio estava parado, não conseguia pensar com o cheiro que predominava na sala, estava a enevoar-me com recordações. Ia fazendo uns riscos que se assemelhavam a números, mas nunca nada batia certo, nada fazia sentido. O meu telemóvel tocou. Tenho-o sempre em silêncio, mas hoje, logo hoje, tinha-me esquecido. O meu tom de toque naquele momento era, a que foi em tempos, a nossa música. Fiquei atrapalhada, tentei desligar o mais rápido quanto possível, mas parecia que nunca mais ia apanhar o maldito telemóvel. Quando finalmente consegui parar a música olhei para ele. Aliviou-me ver que continuava concentrado na resolução do exercício, com sorte, talvez nem tivesse dado conta, era o mais provável.
Ele ali pela segunda vez desde que (…), o perfume, a música…Em outra altura poderia interpretar isto como sinais de que deveríamos trazer de volta aquilo que já fomos, mas eu sei, sei que hoje eram sinais de despedida. Sei que em si já fechou a minha caixa, e dela apenas sobram soltas as palavras que trocámos, mas não para me serem ditas.
Tinha chegado a hora. Trouxe comigo todas as recordações que vieram a mim naqueles 60 minutos e deixei lá a sua parte do meu coração. Ao abandonar a sala disse-lhe num sussurro inaudível: Adeus.
Eu caminhava de cabeça baixa pelo passeio quando ergui a cabeça em direcção da estrada. Nesse exacto momento o carro que passava a meu lado transportava-o no seu interior. O carro seguia na direcção oposta da dos meus pés e foi ali que tudo se desmoronou. Sentia as nossas mãos deslizarem uma através da outra até ao momento em que perderam o contacto. Não eram apenas os meus pés e o seu carro que seguiam em direcções opostas, agora cada um de nós seguia o seu caminho na direcção oposta do outro, os ponteiros da sua bússola apontam para Norte e os da minha para Sul, não há volta a dar.
Eu não perdi nada, só ganhei saber. Eu já sei o que é amar.
Olho agora através da janela, já é de noite e chove imenso. Tenho a sua caixa em minha frente, aberta, e tudo o que guardara nela está suspenso na atmosfera do pequeno quarto. Aos poucos vou-a enchendo e vou-me despedindo. A nossa fotografia e os presentes continuavam expostos pelo quarto, era uma forma de parecer que estava tudo normal, mas já não vale a pena. Eram as únicas coisas que restavam fora da caixa, a despedida custou mas teve de ser, fui buscá-los um a um e depois de um abraço pu-los junto com o resto.
Posso comparar-me por dentro á noite lá fora. A minha alma está vazia e negra como o céu nocturno, e choviam lágrimas em mim, mas as minhas reservas lacrimais estavam vazias como a alma, e dos meus olhos apenas se derramou uma lágrima. Esta última lágrima caiu dentro da caixa. Agora esta estava completa.
Já não resta mais nada, vou fechá-la, desta vez não a sete chaves mas a oito. Estas são as minhas últimas palavras e a oitava chave.
- Só quero que sejas feliz. Eu quero-te muito bem. (IMY)
Peguei no telemóvel, mudei o tom de toque e ... Fechei a Caixa.
segunda-feira, 18 de janeiro de 2010
Ele aparece quando o meu (eu) se desvanece.

Deitei o peito no chão duro e gélido durante algum tempo enquanto impelia qualquer pensamento que fizesse crescer a chama que me corrompia. Começou por ser eficaz, a dor parecia estar adesaparecer e quase adormeci. Enquanto me entregava ao sono nostálgico fui invadida por um formigueiro terrivelmente intenso devido á ausência de movimento.
Bufei de impaciência, levantei-me dali e subi para a cama. Se me deitasse nesta como tinha estado deitada no chão iria sentir-me aconchegada, por isso não o fiz. Sei que se sentisse o mínimo aconchego as mágoas voltariam. Elas são assim, estão sempre prontas para derrubar qualquer pontinha de sentimento positivo, queria poupar-me a mais uma insatisfação. Demente, apeteceu-me deitar de cabeça para baixo, as minhas pernas foram as únicas partes do corpo que mantive sobre a cama. Senti a corrente sanguínea a circular em apenas um sentido, senti-a ascender ao meu cérebro como se tentasse afogá-lo e com ela ascenderam também os pensamentos que eu tentava expulsar a toda a força, mas já não podia mais, era algo que me exigia um esforço mental que eu já não possuía. Deixei-as apoderarem-se de mim sem zelo e elas assim o fizeram.
Porquê? Aprendi sempre a criar espacinhos em mim para as coisas especiais. Esses espacinhos são pedacinhos de coração, e aquilo que guardo nos pedacinhos de coração são as coisas que nunca quero esquecer, apenas vou aprendendo com o tempo a não as ter tão presentes. Mas de repente dei pelos meus pedacinhos de coração a serem-me arrancados impiedosamente. Sei que sou egoista, nunca gostei de partilhar o que amei outrora com os outros, dou o exemplo do meu vestido preferido de quando era criança, apesar de não o poder vesti,r nunca o consegui dar a ninguém, vou querer guardá-lo sempre só para mim…
O meu raciocínio foi interrompido pela sensação de desfalecimento. Devido á minha postura absurda comecei a PERDER OS SENTIDOS. Estava a perder o controlo sobre mim, sentia a alma escapar-se-me do corpo, o meu “eu” estava agora preso á realidade por um fio finíssimo que se quebraria a qualquer instante.
Levantaram-me gradualmente a cabeça e passaram-me a mão pela testa num movimento brando, visto que não estava em mim sentia tudo apenas a 20% de intensidade... mas sentia. Sem saber porquê, aquilo fez-me querer voltar. Suguei a alma para o interior onde sempre a mantivera cativa e comecei a recuperar as energias. Estava tão confortável, não por estar na cama, mas porque era como se alguém me estivesse a agarrar com um carinho quase maternal, mas diferente. Era Ele. Não podia crer, consegui traze-lo até mim sem pensar no seu nome, aliás naquele estado não estava em condições de pensar em nada.
- Como..como é que tu.. – Interrompeu-me.
- Descansa, eu estou aqui.
Ele dizia a verdade, estava mesmo ali, não sei como, mas estava. Os meus pedacinhos de coração estavam a retornar ao espaço que deixaram vazio, ou talvez Ele estivesse simplesmente a preenche-lo com o seu sorriso contagiante que me sossega milagrosamente. Ele resulta como um analgésico.
- Senti a tua falta. - disse-lhe débilmente.
- Mas eu estou sempre aqui contigo.
- Onde?
- Mesmo aqui a teu lado, vais aprender a encontrar-me.
- Mas então diz-me…
- Xiu, mas então nada, não te preocupes, eu venho sempre que precisares de mim, agora tens de dormir, estás exausta.
E estava mesmo, queria ter insistido mais, mas não consegui. Libertei os braços para o agarrar pela cintura. Agora estamos abraçados, eu e Ele. Sei que quando acordar Ele provavelmente não vai estar aqui, e mais uma vez não tive a oportunidade de saber o qual o seu nome próprio, mas para mim Ele já tem nome.
Ele é a minha força motriz, daquelas forças que aparecem quando precisamos e não sabemos de onde surgem. Ele é o meu porto-seguro.
Por enquanto não o sinto sempre presente, mas ele disse-me que está sempre aqui e eu acredito porque de alguma forma sei que é parte de mim, por isso vou-me contentando com a esperança de que ele volte a aparecer a qualquer momento para me abraçar.
quinta-feira, 14 de janeiro de 2010
Diz-me o nome (d)Ele.

Soprou em mim uma breve brisa, trazia em si um levíssimo e requintado odor a alecrim e orvalho, que se misturou com o cheiro do meu shampoo. Fiquei gelada, desejei colocar-me em posição fetal mas mais uma vez o meu corpo não obedeceu. Excepto o meu cabelo, que esvoaçava á passagem do vento, conseguia apenas mover as pálpebras oculares, tudo o resto continuava imóvel.
Naquela posição só podia ver os pés dos indivíduos que por ali passavam, mas nunca ninguém vinha na minha direcção, pelo contrário.
Houve algo que me embateu na perna, reagi. Era a fotografia de um rapaz, aparentava ser antiga, era ainda a preto e branco, ligeiramente dobrada e tinha no canto superior direito algo que parecia ser café, talvez fosse a marca de uma chávena que estivera pousada sobre esta. O seu rosto era comum mas bonito, muito bonito. Os traços da cara eram quadrados, conferindo-lhe um ar adulto, os lábios perfeitamente desenhados e uns olhos elegantes e doces, imaginei-os da cor do mel. A sua expressão era serena o que de certo modo me consolou.
Senti calor e os meus membros a descongelarem, ergui a cabeça para olhar em redor, P A R A L I S E I ao ver que alguém me contemplava. Não estava perto, de maneira que não podia ter uma visão nítida sobre o personagem, mas tive a certeza de que era Ele. Não conseguia desviar o olhar, mas a minha limitada visão periférica permitiu-me ver que estávamos sós, os pés que via há minutos atrás tinham desaparecido, não havia mais ninguém ali.
O meu batimento cardíaco acelerava exponencialmente, como se o coração fosse sair do meu peito, com a palma da mão fiz pressão sobre este para me certificar que o mantinha lá dentro. Talvez fosse medo, mas inconscientemente já me dirigia a Ele, via-o cada vez mais longe de mim... por isso acelerei o movimento das pernas até estar a correr. Parei para recuperar o fôlego, Ele também tinha parado, aproveitei para retomar a corrida na esperança de o alcançar.
Agora estávamos frente a frente.
- Quem és tu? - Perguntei.
Não me respondeu, virou costas e com o olhar pediu-me que o seguisse. Segui-o hesitante.
Perdi a conta aos passos que dei, estávamos a caminhar em linha recta já há alguns minutos, Ele parou e eu imitei.
Estava confusa, não sabia que lugar era aquele, apenas sei que era absolutamente perfeito e predominava o odor a alecrim e orvalho, relembrei a brisa que me trouxe a sua fotografia. Olhei-o com uma expressão interrogativa, mais uma vez não me disse nada, apenas me deu a mão. No momento em que me tocou uma chama percorreu-me o corpo, senti-me corar.
A sua mão estava quente, a sua pele parecia seda, não resisti em apertar-lha com mais força e ele exibiu um sorriso surreal. Fechei os olhos para absorver todas as sensações que vibravam em sentidos opostos e perpendiculares dentro de mim. Tive receio de abrir os olhos, com medo que Ele não estivesse ali ao meu lado, mas não aguentei mais um segundo sem tocar o seu rosto perfeito com o olhar. Ganhei coragem e quando os abri Ele continuava lá. Suspirei de alívio.
Os seus olhos estavam fixos nos meus, tentei desviar-me deles mas a sua outra mão impediu que eu o fizesse. Agora olhando profundamente para os espelhos da sua alma foi como se o conhecesse desde sempre. Procurei-o em todas a gavetas da minha memória, mas não havia nenhum sinal de si no meu passado. Desisti. Voltei então a perguntar-lhe.
- Diz-me, qual é o teu nome?
Ajeitou o cabelo perfeito e aproximou-se de mim, a sua face estava agora chegada á minha, pude sentir "o seu hálito fresco e a sua voz de veludo" quando me sussurrou ao ouvido:
- O meu nome é...
Os phones foram-me arrancados bruscamente.
Estava anastesiada com tudo o que se passara, despertei e dei por mim ainda sentada naquele canto, gelada. Foi como se nunca tivesse saído dali, a multidão de pés continuava a passar em minha frente. Não queria acreditar que tinha sido um sonho, não podia ser, era impossível… fora tudo tão real, senti-me desamparada, uma tristeza tomou conta de mim, não me esforcei sequer para lhe responder.
- Inês, eiiii, acorda miúda... pareces um zombie. O que é isso que tens na mão? Quem é esse?
- Na minha mão? Esse quem?
Baixei a cara para ver o que segurava na mão. Era a sua fotografia, esbocei um sorriso de orelha a orelha, eu sabia que tinha sido real, e esta era a prova. Ele era demasiado perfeito para ser real e demasiado real para ser um sonho. Virei a fotografia por curiosidade, no seu verso estava algo escrito com uma caligrafia desajeitada, esforcei-me para ler, dizia:
"Para me encontrares pensa no meu nome."
Quando fecho os olhos ainda consigo ver o seu sorriso e sentir o seu toque, mas nunca encontrei a porta que me levaria a ele sempre que sentisse a sua falta, o seu nome.
quarta-feira, 13 de janeiro de 2010
Fui onde o vento me levou.

Saí da cama, fui até a janela para inalar um pouco de ar puro. Inspirei. O ar frio e húmido entrou veloz pelos meus pulmões fazendo-me estremecer. O meu corpo queria tremer, mas eu ignorava a sua vontade, debatia-me com o frio que sentia imaginando-me num fim de tarde de verão, apenas para poder relembrar vezes sem conta aquela primeira lufada de ar que me fez sentir estranhamente bem. Por minha vontade, ficaria ali a ver as folhas das árvores em meu redor balançarem á passagem do vento, mas a minha mãe gritou o meu nome.
Tolerei a hipótese de a trazer para a minha beira, em frente daquela janela aberta, mas que raio de ideia era aquela? Enquanto o diabo esfregava um olho estaria a fechar a janela, obrigando-me a entrar usando a força dos membros superiores. Eu não queria imprimir qualquer imperfeição naquele momento insano.
Inalei mais um pouco de ar para a despedida. Fechei a Janela. Entrei.
Tentei manter aquele pedaço de ar puro dentro da minha caixa torácica, mas excedi o meu limite em menos de um minuto, tive de deixa-lo escapar e respirar de novo. Desta vez o ar que me invadiu os pulmões era quente, mas não me senti de todo confortável. A minha mãe suplicava-me que organiza-se as minhas 'tralhas', como ela lhes chama, a desorganização deixa-a fora de si. Assim o fiz. Despejei tudo para fora do armário num ápice, quando a vi...
Oh sim, quando a vi, uma caixa cor de rosa, tamanho médio e completamente empoeirada, nos confins do meu armário. Ajoelhei-me no mesmo instante para a alcançar, peguei-lhe de forma cuidada como se fosse algo extremamente frágil. Quando senti a textura rugosa do papel de cartão que a constituia pareceu que a minha infância passou em frente aos meus olhos durante escassos segundos, quis agarra-la, levá-la contra o peito com a força de um caloroso abraço. Eram SAUDADES. Apercebi-me que o que me embateu no peito foi uma mão vazia, não agarrei nada, a não ser moléculas de ar e grãos de pó que por ali andavam suspensos. As memórias abstratas escaparam-me por entre os dedos, necessitava avidamente de algo concreto, algo que pudesse tocar.
ABRI. Abri a caixa, tossi com o pó que se libertou dela devido ao meu movimento ansioso.
Lá dentro estava o meu maillot e as sabrinas do ballet juntamente com fotos dos saraus e uns tantos objectos que ignorei. Tirei-os da caixa e levei-os ao peito como quis fazer com a infância momentos atrás, mas desta vez as memórias eram materiais, conseguia tocá-las.
Acariciei a minha face esquerda com o tecido suave de que era feito o maillot, pude sentir o seu cheiro, cheiro esse que me levou ao estúdio de ballet, 8 anos atrás. Conseguia ouvir a musica, os risinhos das meninas que trocavam de roupa nos vestiários, os passos da professora Kate que dançava graciosamente em frente ao espelho enquanto esperava a sua turma do Pre-Primary. Foi tão bom poder voltar. Tentei vesti-lo, mas era extremamente pequeno, chegando ao ponto de o sentir rebentar pelas costuras, não insisti com medo de o estragar. Ás sabrinas não resisti, quase que as podia ouvir gritar pedindo que as calçasse, e era o que eu mais queria. Segurei-as a jeito e descalcei os chinelos... Os meus pés, tal como o resto, cresceram imenso, tive de tolher os dedos para que coubessem nas sabrinas, senti dor, mas era agradável, era como se tivesse menos 25cm de altura e uma inocência dócil em mim.
Estava em pulgas, sentia a ansiedade da criança de 8 anos que me dominava, ali naquele instante, levantei-me desajeitada para dançar. A musica que me passava pelo pensamento arrepiou-me, dei por mim a mover-me sem graciosidade, mas não me preocupei, era só eu, a música, a criança que sempre fui e as minhas sabrinas de ballet.